Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

A Construção Máxima

 

Perguntas bem, como é que se formou a estrutura em esponja que as galáxias desenham, mas esse é um mistério por desvendar. Por enquanto, estamos tão confundidos como os arqueólogos que primeiro enfrentaram os hieróglifos das antigas civilizações.” Decididamente, o Mário abandonou o ar doutoral do cientista que fala para o público; a noite tem efeitos surpreendentes sobre nós, vamos perdendo as máscaras, perdendo o medo de sermos nós mesmos à medida que vamos nela mergulhando. O Mário quer partilhar o seu pensamento:
 
Hoje é inegável que os vazios esféricos são o elemento estrutural dominante e que temos de explicar a estrutura a partir do crescimento desses vazios. O problema é que não fazemos ideia nenhuma de como eles podem ter surgido. Como se iniciaram esses «buracos»? Há uma teoria que propõe a ocorrência de explosões que teriam originado umas bolhas iniciais que depois cresceram; mas o que pode ter originado essas explosões? Não temos ideia nenhuma a esse respeito. Talvez por isso, a teoria mais aceite é ainda a de que a Inflação ampliou flutuações quânticas do plasma inicial, originando anisotropias que depois serviram de «sementes» para a condensação da matéria nesses filamentos e paredes que se observam.”
 
Mas tu não acreditas nisso, pois não?” a Luísa a esgravatar na ponta deixada solta pelo Mário.
 
Não. Para começar, essa coisa da Inflação, em que o Universo teria expandido umas 1050 vezes em 10-34 segundos, e isto são apenas os números actuais, que não param de crescer a cada revisão da teoria, é completamente incompatível com toda a nossa Física; depois, não faz sentido pensar que a matéria se condensou ao longo de filamentos originando os imensos vazios que se observam; o que seria de esperar é que a matéria se condensasse em aglomerados, esses filamentos deveriam desaparecer mais depressa do que a formação de vazios; por último, como é que os vazios poderiam ser tendencialmente esféricos num processo deste tipo?”
 
E se olhares para o passado distante ainda encontras mais argumentos...” desabafei.
 
Mário olhou-me um pouco de soslaio e concordou: “Sim, a população de quasares, que são os astros mais primitivos que conseguimos observar, parece ser isotrópica, não evidência sinais da existência de nenhuma estruturação; e a observação do CMB parece indicar que a distribuição inicial da matéria era absolutamente isotrópica.”
 
Mas tu e o Jorge não disseram já que existiam umas flutuações no CMB?”
 
“A existência dessas flutuações é indispensável à única explicação que temos. Mas a verdade é que na primeira missão para análise do CMB, a do COBE, as flutuações detectadas já eram ínfimas, de 1:10 000; com a segunda missão, a WMAP, com uma resolução dez vezes maior, esse número desceu para 1:100 000. Mas nota que esse número é o limite máximo possível das flutuações iniciais. É obtido a partir das leituras do satélite, filtrando os fenómenos conhecidos capazes de alterar a radiação inicial, os quais são conhecidos com uma margem de erro grande. Ou seja:Mário cala-se por momentos, inspira, o que vai dizer parece custar-lhe como uma confissão de coisa íntima:
 
 “Nós não sabemos se existem flutuações mensuráveis de densidade na distribuição inicial, apenas sabemos que a existir não são superiores a 1:100 000.”
 
Mas então porque afirmam que existem flutuações se elas podem não existir?”
 
Porque a sua não-existência seria completamente inexplicável. Para explicar a Vida, a Ciência ainda pode apresentar o Acaso, mas aqui o Acaso já não serve. Como é que a matéria se poderia distribuir ao longo de todo o vasto Universo de forma absolutamente uniforme? Os religiosos, se consciencializassem o que isso significa, exultariam, veriam aqui a prova indesmentível duma acção divina, a construção máxima, dotada da ordem máxima, aquela que apenas um Deus poderia fazer.”
 
E não é?”
 

 

publicado por alf às 01:42
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11 comentários:
De antonio - o implume a 14 de Janeiro de 2009 às 10:50
Uma aranha gigante teceu este universo e nós somos uma mosca na sua teia...
De alf a 16 de Janeiro de 2009 às 18:07
A voz do poeta rsrsrs... mas olhe que esta teia alimenta-nos, somos feitos dela... somos a mosca e a aranha ao mesmo tempo...
De Curioso a 14 de Janeiro de 2009 às 20:45

Quasares...??

Acho que já sei o que são (eram)....

e o que originaram...

Voltarei entretanto com novo comentário...

Abraço.

Curioso.
De anonimodenome a 16 de Janeiro de 2009 às 01:53
Curioso :
Eu também creio que entrevejo qual o passado e o futuro dos quasares, mas não avanço qualquer palpite antes do alf lá chegar.
O nosso amigo alf precisa de tempo conforme anunciou no outramargem e como já esperámos 20 anos (eu pelo menos) pela divulgação da teoria, posso aguardar um pouco mais e dominar a minha ansiedade.
A sua brilhante descoberta no post anterior indicia que o amigo Curioso é bem capaz de já estar a 'olhar' bem.

De alf a 16 de Janeiro de 2009 às 18:12
será? não será? Vamos a ver quem tem a melhor explicação. Até pode ser que saibam alguma coisa que o Jorge não tenha descoberto, nunca se sabe!

Um pouco de paciência, para cúmulo ando com os olhos um bocado inflamados e não posso estar muito tempo a olhar para o monitor...
De Peter a 16 de Janeiro de 2009 às 12:10
Continuo a aprender e a repensar os meus conhecimentos, que são, mais ou menos isto:

http://map.gsfc.nasa.gov/news/index.html

Do texto que publicou, destaco a intervenção de Mário:
“Hoje é inegável que os vazios esféricos são o elemento estrutural dominante e que temos de explicar a estrutura a partir do crescimento desses vazios. O problema é que não fazemos ideia nenhuma de como eles podem ter surgido. Como se iniciaram esses «buracos»? Há uma teoria que propõe a ocorrência de explosões que teriam originado umas bolhas iniciais que depois cresceram; mas o que pode ter originado essas explosões? Não temos ideia nenhuma a esse respeito.”

Tudo é novidade para mim. Vamos aguardar (mais 20 anos já não dá…). Os meus conhecimentos resumiam-se a:

“Talvez por isso, a teoria mais aceite é ainda a de que a Inflação ampliou flutuações quânticas do plasma inicial, originando anisotropias que depois serviram de «sementes» para a condensação da matéria nesses filamentos e paredes que se observam.”

Muito interessante o ponto de vista do “curioso”, até porque exprime o seu pensamento duma forma acessível:

«Vou supor todo o universo constituído por partículas em perfeito equilíbrio e só uma se move...
Esta partícula ao mover-se vai deixar um espaço vazio entre várias partículas e o equilíbrio gravitacional existente vai perder-se para as partículas próximas daquele "buraco" que vão ter uma força gravítica maior a puxá-las para fora do que para dentro ... a tendência será estas partículas começarem a mover-se para o exterior deste buraco aumentando-o... em condições ideais este "buraco" terá uma forma esférica e irá aumentar gradualmente com o tempo. Neste modelo simples cada partícula em movimento irá dar origem a uma esfera sem matéria...uma bolha...
Quando as bolhas forem suficientemente grandes de modo a intersectarem-se a tendência será juntarem-se formando bolhas cada vez maiores...»

Poderá ser uma hipótese?
De alf a 16 de Janeiro de 2009 às 18:14
Bom ponto da situação.

Temos agora de seguir a conversa dos 4 amigos a ver o que aí vem... o próximo post será um pouco filosófico, mas depois entraremos no cerne da questão
De __gArY__ a 19 de Janeiro de 2009 às 13:36
é nem chegamos na relatividade e o negocio ja ta interessante.

eu ainda não me atrevo a arriscar palpites igual o curioso tenho que pensar mais e ler mais a respeito, mas só pelo fato de todos compartilharmos o pensamento de uma física lógica e compreensivel já me prende a atenção.

só para constar estou desenvolvendo duas teorias que tentam explicar como o alf diria os fenomenos por de trás da relatividade e a outra trata de unificar a força gravitacional com a eletromagnetica.

ambas explicadas através de modelos "logicos", como a fisica deve ser. nao estou a fazer propaganda nem nada e nem vou ocupar novamente esse local com esse assunto, mas se algum de voces tiver interesse em saber mais meu email é garyzaum@msn.com

abraços alf e desculpe o abuso
De alf a 19 de Janeiro de 2009 às 14:50
gArY

Não é abuso nenhum, pelo contrário!

Eu já lhe fiz a sugestão e repito: porque não inicia um blogue com as suas ideias? O simples desafio de termos de expor as nossas ideias é logo um grande estímulo e força-nos a ser mais claros no pensamento, a amadurecermos as ideias.

Porque as ideias nascem simples e cristalinas, mas depois há um longo trabalho de amadurecimento...
De Curioso a 21 de Janeiro de 2009 às 23:34

Boa noite...

O que vou dizer a seguir é pura especulação mas como isto está um pouco adormecido... cá vai...

Como referi num comentário anterior os espaços vazios originaram-se (para mim) devido ao aparecimento de zonas menos densas na estrutura inicial do universo...
Parece mais ou menos evidente que também existiria a possibilidade de se formarem zonas mais densas...
A questão que surge é: O que é que essas zonas com maior densidade de partículas originaram? Para mim a resposta terá que ser: QUASARES... seja lá isso o que for.
Naquela zona ( de maior densidade), devido à interação gravitacional, as partículas (possivelmente hidrogénio e algum hélio) iriam ficar cada vez mais juntas e formar-se-iam enormes núvens de gases cada vez mais densas e mais quentes no seu interior. Parece-me que estou a descrever a formação de uma estrela monstruosa.
Devido às suas dimensões e à temperatura no seu interior (e superficial) estas "estrelas" iriam emitir em frequências mais elevadas que as estrelas normais ( talvez raios X ou mesmo raios Gama). Penso que é isso o observado.

O que vem a seguir ainda é mais especulativo...
Como merreriam estas enormes estrelas? Devido ao seu tamanho terei de concluir que teriam um tempo de vida muito curto... Imagino o tipo de cataclismo que ocorreria quando estas enormes estrelas morriam ... talvez originem as famosas erupções de raios gama... que ninguém consegue explicar...

Não me perguntem o que fica no centro da explosão... o resto da "estrela"... poderia dizer que é um enorme buraco negro (mas parece que eles não existem)...
Talvez o núcleo de uma jovem galáxia que devido à conservação do momento angular... possa formar agora os famosos braços em espiral com os restos da explosão...

Há aqui coisas que poderão não ter sentido nenhum... como por exemplo:

Será possível formarem-se estrelas com uma massa equivalente à de uma galáxia?

Será que estas estrelas seguiriam o mesmo padrão daquelas que estamos habituados a observar?


Bem... Basta..

Abraço a todos os que tiverem paciência para lerem aquilo que eu escrevi até aqui...

Curioso.
De alf a 22 de Janeiro de 2009 às 01:37
Olá Curioso

Segunda feira as coisas começarão a entrar no seu ritmo normal...

Quanto aos quasares, esse é o tipo de raciocínio que os astrónomos fazem, portanto, está em boa companhia; mas repare:

suponha que tem uma região de maior densidade; a matéria da vizinhança começará a concentrar-se nessa zona; ao fazê-lo, irá originando uma zona de menor densidade à volta da de maior densidade; nos limites dessa coroa de menor densidade, o campo será apenas o devido ao excesso de matéria no interior desse limite, que é apenas o excesso inicial; ou melhor, não será nenhum, porque o excesso inicial numa certa zona já seria o resultado de uma depleção na sua vizinhança - à distância, anula-se.

Portanto, um excesso de densidade local pode originar uma pequena concentração de matéria rodeada por uma coroa vazia que impede qualquer crescimento futuro.

Ou seja, de um aumento de densidade local nada de relevante poderá resultar.

Por outro lado, um quasar não é do tamanho de uma galáxia; a sua luminosidade pode ser 100 vezes a da nossa galáxia. É demasiado grande para poder ser qualquer coisa que se assemelhe a uma estrela.

Uma sugestão: volte às bolhas, deixa-as crescer... e vá observando o que acontece...

Um abraço

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