Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Um Universo que pode ser explicado às crianças

 

O vento sopra agreste... sopra sempre assim na primavera, nesta esplanada sobre a praia da Torre. Gosto disto. Os arranjos ajardinados e a vista soberba sobre o mar transportam-me para muito longe do caótico ambiente de Lisboa. A presença do forte de Oeiras dá aquele toque esotérico que liberta a imaginação.


 

É hoje que vais explicar a Luz ou o tempo ainda não está suficientemente do teu agrado?” a Luísa interrompe-me a contemplação com a sua voz entusiasmada e remata com uma pequena gargalhada. Esforço-me para renunciar ao apelo hipnótico da luz do mar: Tem de ser, não é? Senão, ainda me bates...”, o meu sorriso tímido merece um sorriso divertido de todos.

Confesso que estou curioso para saber como vais explicar a teoria da Relatividade às meninas. O Mário com aquela pose benevolente que ele tão bem sabe assumir.

Mário, pensas que somos burras?” Luísa não deixa escapar a oportunidade de dar um beliscão ao Mário, propiciador de outras intimidades que lhe estão a apetecer.

Eu não vou explicar a Teoria da Relatividade como o Einstein e o Minkowsky a fizeram! Seria o mesmo que pôr-me a explicar a teoria de Ptolomeu!Mário suspendeu imediatamente o carinho que estava a fazer à Luísa:Como é isso?”

“Eu vou explicar a misteriosa propriedade do Universo que está por detrás da questão da Relatividade. E de outras questões como a expansão do espaço. A teoria do Einstein ou a do Big Bang são apenas tentativas de modelar o Universo na ignorância dessa propriedade e baseadas numa presunção errada, tal como o modelo de Ptolomeu o foi.”

 

O Mário enfia a cabeça nas duas mãos. Não é para menos, imagino o que ele estará a pensar. Sei que apenas a credibilidade que a Luísa e a Ana me dão, e o interesse delas, me permitirá sustentar esta conversa; se dependesse dele acabaria já aqui. Aguardo. Mário levanta a cabeça:

Para nos mostrares que o que dizes não é fantasia, tens de o provar com recurso à matemática.

Talvez eheh”, procuro relaxar um pouco o Mário, “mas vamos ver aonde consigo chegar usando ao máximo a lógica e ao mínimo a matemática! O modelo de Copérnico também pode ser explicado às crianças, embora fosse necessário um génio matemático para o estabelecer, não é verdade?”. Percebo-o: se eu entrar pela matemática dentro, a Luísa e a Ana deixarão de poder acompanhar. Tenho de manter as explicações ao nível da matemática e da física do nono ano.

Noto que as minhas palavras parecem tê-lo irritado. Afasta um pouco a Luísa para falar, quer dizer algo sério.

Tu queres explicar o Universo usando a Lógica? Mesmo o Einstein, que defendeu que isso era possível, fez o quê? Partiu dessa propriedade misteriosa que o Princípio da Relatividade enuncia para obter equações ainda mais misteriosas, matando qualquer veleidade que poderíamos ter de compreender o Universo. O que tu queres fazer nasceu com o Newton mas morreu com o Einstein!”.

Não estranho o que ele diz, já sei que a crença na incompreensibilidade do Universo se tornou tão forte na Física como na Religião. Tenho de contestar, mas com calma:

 

A crença na impossibilidade de ir compreendendo o Universo acompanha os modelos errados, bem como a ideia de um Universo de acasos e desarmonias. Com os modelos logicamente consistentes, como o que Newton fez, nasce um Universo que podemos ir compreendendo, cheio de harmonia, beleza, inteligência. Sabem a sensação que temos quando passeamos num jardim bem cuidado?”

 

Sim.”  O ar surpreendido da Luísa mostra como este pensamento foi inesperado para ela.

Não me digas que agora te tornaste místico?

 

Nada disso. Os crentes irão dizer que não há maior prova da existência de Deus, como aconteceu com o modelo de Newton, mas igualmente os ateus dirão que tal Universo prescinde de Deus; ou seja, todos os crentes ficarão mais convictos daquilo em que crêem, seja qual for a sua crença.

 

Vivermos num local feio e desarmónico é muito diferente de vivermos num local belo... somos mais felizes quando vivemos num sítio bonito... pensas que um outro entendimento do Universo contribuiria para uma humanidade mais harmónica?

 

Isso mesmo Ana. Uma ideia de Universo feita de matéria negra, energia negra, buracos negros, tudo regido pelo caos absoluto, impossível de descrever com palavras porque é ilógico, contrário a si mesmo, é tão aliciante como a ideia que os marinheiros de antigamente tinham do mar. E isso tem consequências. A história e o destino dos diferentes povos da antiguidade reflecte muito as ideias que eles tinham do Universo. O Einstein buscava esse Universo que se poderia compreender, explicar às crianças.”

 

Mas falhou. E achas que tu conseguiste o que o Einstein não conseguiu?Mário fez uma pausa, convicto de que tinha encontrado o argumento final. Pelo canto do olho, vejo a Ana e a Luísa expectantes da minha resposta.

Não é assim; Einstein fez uma parte do caminho; um caminho iniciado por Galileu, e continuado por outros. Eu continuei esse caminho,apenas isso. E consegui atingir a compreensão que ele buscava. É por isso que a Ana e a Luísa me vão poder compreender. Porque agora, eu posso explicar o Universo às crianças.” Sinto o coração a saltar do peito, estas afirmações grandiloquentes incomodam-me, mas que alternativa tenho?

Estás a dizer que vamos ficar a compreender melhor o Universo do que o Mário?”

Ana, não compreendes tu melhor o Universo do que esse grande génio que foi o Ptolomeu? Não compreenderão as crianças de amanhã o que parece transcendente aos físicos de hoje? Imagina que eu sou uma criança do Futuro que te veio apresentar um Universo surpreendente, compreensível, harmónico.” Pego na mão da Ana, que se sorri com a ideia... ou será que é com o toque da minha mão?

Que és uma criança não tenho dúvidas!”, a Luísa deixa explodir uma das suas contagiantes gargalhadas. Abençoada Luísa. Aproveito para ir directo no assunto, com entusiasmo:

“LUZ! Não precisamos mais do que analisar, sem preconceitos, as propriedades da Luz para desvendar a natureza da Matéria e do Espaço! Nas coisas elementares, como na ingenuidade das crianças, se revelam as grandes verdades. Na Luz e no Teorema de Pitágoras!”

 

publicado por alf às 02:27
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9 comentários:
De alf a 21 de Maio de 2008 às 02:53
A primeira metade deste post já saíu no «outra margem», no primeiro post sobre o "triângulo das bermudas da Física"; mas a segunda parte é nova. E importante... embora não seja matéria de física...
De antonio a 21 de Maio de 2008 às 15:29
Cá está: o teorema de Pitágoras outra vez! Começo a desconfiar que desempenha um papel importante em toda esta trama... mas é apenas um palpite.
De alf a 23 de Maio de 2008 às 02:51
António

Palpite? Oh diabo, ando a explicar-me mal! É certeza, meu caro, certezinha!

Obrigado pela sua presença.
De Diogo a 22 de Maio de 2008 às 13:53
Muita palha, muita palha. Mas faça lá as contas campeão.

Não se esqueça que se o observador na estação vê a luz percorrer duas hipotenusas enquanto o observador dentro do comboio vê dois catetos, o inverso também se passa para uma lanterna acendida dentro da estação. O viajante também verá duas hipotenusas na estação que se afasta…
De alf a 23 de Maio de 2008 às 02:58
diogo

Ena que raciocínios tão complicados! A maioria dos meus leitores desapareceria se eu me pusesse com conversas tão complicadas!

Mas eu não preciso disso! Como digo neste post, seria como se o Galileu se pusesse a explicar o modelo de Ptolomeu para mostrar que a terra se move.

Essas confusões são aliás muito fáceis de esclarecer. Não resultam da teoria do Einstein mas da versão do Minkowsky. Vai bastar uma fala do Jorge para arrumar isso.

Mas o próximo post vai trazer grandes surpresas noutra frente. A não ser que eu mude de ideias...
De Diogo a 23 de Maio de 2008 às 22:39
Passemos então à simplicidade!
De leprechaun a 26 de Junho de 2008 às 20:46
Isto da Luz já me agrada, que é muito místico!

Como essa Luz interior...

Rui leprechaun

(...onde se espelha o Amor! :))


O Astrónomo

À sombra de um templo, o meu melhor amigo e eu vimos um cego sentado e solitário.
O meu amigo disse: - Olha que este é o homem mais sábio da nossa terra.
Então aproximei-me do cego, saudei-o e começámos a falar. Pouco depois disse-lhe:
- Desculpa a pergunta, mas há quanto tempo estás cego?
Ele respondeu:
- Desde que nasci.
- E que caminho de sabedoria escolheste?
- Sou astrónomo.
Em seguida levou a mão ao peito e acrescentou:
- Observo todos estes sóis, estas luas e estrelas.

Khalil Gibran, in "O Louco"
De !!Ritit@!! a 7 de Outubro de 2009 às 21:11
Não percebi nada a linguagem é muito complicado!!
É exactamente blá blá blá e não dizem nada.
De alf a 8 de Outubro de 2009 às 12:33
Rita

Pois, também acho.

Este post marca um objectivo, conseguir construir uma descrição simples do Unverso. Mas está muito palavroso porque escrevi-o a pensar nas pessoas ligadas à ciência e que acham que isso é impossível.

A tarefa não é fácil, em parte porque temos a cabeça cheia de ideias erradas sobre o universo, em parte porque eu próprio tenho de me esforçar ainda muito antes de encontrar a linguagem mais adequada para falar disto.

Aqui comecei a fazer uma primeira tentativa e encontrei muitas dificuldades. Mas haverá uma segunda em que as coisas terão de sair melhores.

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