Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Pureza Virginal

 

 

 

The cosmic microwave background spectrum measured by the FIRAS instrument on the COBE satellite is the most precisely measured black body spectrum in nature. The data points and error bars on this graph are obscured by the theoretical curve.

 

 

Repara na Radiação Cósmica de Fundo: não é fascinante a sua pureza? Exactamente a Lei de Planck da radiação! Conheces mais algum fenómeno real que produza uma radiação assim?

 

Assim exactamente não... surgem sempre riscas espectrais e outras perturbações da curva de radiação... não sei se já foi realizada alguma experiência para produzir uma radiação assim tão pura.”

 

 

 

 

espectro da radiação solar (NASA)

 

“Pois, eu também não sei. Mas o que sei é que ela nos dá a possibilidade única de caracterizar um estado do Universo com a precisão necessária à completa modelação do Universo a partir desse estado.”

 

Como assim?

 

“É que podemos presumir um estado em que a distribuição de matéria no universo que observamos era absolutamente uniforme e isotrópica.”

 

“Estás enganado. Por um lado, a Teoria do Big Bang explica essa homogeneidade, fruto dos choques entre as partículas e os fotões no denso e quente estado que antecedeu a libertação da Radiação Cósmica de Fundo, ou CMB. Depois, ao contrário do que dizes, são as inhomogeneidades que são importantes, pois os pontos de maior concentração foram as sementes das galáxias.

 

“Duplamente errado! Por um lado, a extrema homogeneidade do CMB é uma dôr de cabeça para a teoria do Big Bang, que teve de inventar coisas como a Inflação, não é verdade? Tu continuas preso à ideia de um «Big Bang» mas repara que ele é apenas uma presunção simplória, pois a Radiação Cósmica de Fundo é a informação mais antiga que temos, ou que pensamos ter, sobre o Universo. Nem temos nada que suporte qualquer especulação sobre o «antes», nem temos necessidade dela para fazer um modelo cosmológico.”

 

Impaciente, o Mário interrompe-me:

Sim, mas concerteza que o Universo não começou por uma distribuição homogénea de matéria!

 

“E começou com uma «Inflação»? Há alguma diferença entre presumir uma Inflação ou a uma distribuição uniforme inicial para matéria?

 

“ Então e não interessa saber como a matéria foi criada?

 

“Mas a matéria foi criada, Luísa? É que nem isso sabemos, podemos pensar que o espaço, o «medium», é que foi criado e que a matéria é uma perturbação desse momento... não é que eu pense que foi assim, estou só a mostrar que tudo o que possamos dizer sobre o assunto é um castelo no ar. E, sobretudo, não precisamos disso agora. Depois de compreendermos melhor o Universo e de termos um modelo melhor de uma partícula, então poderemos começar a pensar no «antes» de forma minimamente científica.”

 

Não deixas de ter razão, do ponto de vista estritamente científico, mas desde já te digo que se a Ciência falasse assim... as pessoas não aceitam um «não sei nem faço ideia» como resposta.”

 

“Não sei, não faço ideia, mas quero saber. Não sei ainda... eu penso que isto é exactamente o que caracteriza a Ciência!”

 

Só é pena que a posição de alguns cientistas pareça ser a de: «Sei tudo, logo, o que não sei não existe»...” Murmurou a Ana. Mário evita responder-lhe:

 

Bom, mas já estou a ver que não terás mais novidades... as flutuações de densidade originam zonas onde a concentração de matéria é maior, e estas, por sua vez, por atracção gravítica, originam as galáxias... a história do Universo é bem conhecida do CMB para cá!” O Mário a recuperar a sua segurança de professor.

 

“Eu não te disse que estavas duplamente errado?” Não pude evitar um sorriso. “Toda a teoria aceite sobre a formação das galáxias é um disparate. Por isso é que não consegue explicar a distribuição espacial das galáxias, os imensos «vazios» e os «muros» que elas formam, o seu movimento, a sua rotação, ou formações estelares como os quasares.”

 

Não consegue??”, indigna-se o Mário,Quasares são núcleos galáticos activados por buracos negros super-massivos; a distribuição de galáxias e sua rotação explica-se pela matéria negra; quanto ao movimento da nossa galáxia, sabe-se que se dirige para um ponto do espaço onde existirá um Grande Atractor, como o prova o movimento convergente de outras galáxias.”

 

“Pois, é o que eu digo, não se faz ideia nenhuma: buracos negros, matéria negra, energia negra, grandes atractores que são invisíveis apesar de imensos... os cientistas batem aos pontos a autora do Harry Potter...”, o meu sorriso a crescer para gargalhada.

 

Eu nem te respondo a essa insolência; é tudo fácil de perceber para os ignorantes, meu caro Jorge, que vêem sempre  explicações óbvias e simples. Mas essas explicações simples são apenas fruto da ignorância, como vais perceber assim que tentares apresentar as tuas ideias.”

 

Então vou FINALMENTE começar a explicar o Universo. Preparem-se para a Magia da Simplicidade!

 

publicado por alf às 18:52
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20 comentários:
De alf a 20 de Novembro de 2008 às 19:10
as flutuações de tamanho das letras não são um efeito artístico - por alguma razão que desconheço, elas parecem decidir autonomamente o tamanho que acham mais indicado. Eu não estou de acordo mas ainda não consegui dar a volta à questão...
De Curioso a 20 de Novembro de 2008 às 20:03
Boas..

Parece que afinal tinha razão no último comentario ao post anterior...

Mas para mim surge um problema... Como se formam acomulações de matéria (galáxias) se a matéria está distibuída isotropicamente...
Isso para mim significa que a gravidade entre essas partículas equilibra-se e elas mantêm-se num equilíbrio estático...

Estou curioso para saber novos desenvolvimentos...


Abraço


Curioso.

Ps:

O Segredo do Teorema de Pitágoras ... ainda existe?
De alf a 20 de Novembro de 2008 às 22:19
Tinha mais ou menos razão... na verdade não podemos dizer que se trata do momento da «criação»; por exemplo, a criação pode ter-se iniciado pela formação de pares electrão-protão que depois originaram átomos de H e mais alguns... ou pode ter-se originado em neutrões, como propôs o anonimodenome, que decairam em pares electrão-protão e depois formaram os átomos... ou pode ter sido outra coisa qualquer, não sabemos na verdade. Mas sabemos uma coisa: há um momento em que a distribuição de matéria é espantosamente uniforme e isotrópica. E esse momento é tudo o que precisamos para traçar toda a história do universo a partir daí.

A maneira como a matéria se vai organizar é muitíssimo curiosa! Um ovo de Colombo, no fundo, porque é evidente mas contrária à nossa intuição.

O Segredo do Teorema de Pitágoras é crucial. Nós facilmente aceitamos que o espaço seja mais ou menos curvo, se embrulhe no Tempo, tenha um número indeterminado de dimensões... mas o Segredo do Teorema de Pitágoras é o espelho que vai revelar o que nós somos. Nós, não o espaço.

Mas isso será a última coisa a dizer. A descoberta do Segredo é o Fim da Aventura. Há todo um percurso a fazer para poder entender esse Segredo. Não está nas mãos do narrador alterar a sequência das coisas...

Um abraço
De antonio a 20 de Novembro de 2008 às 20:42
Começar um post intitulado pureza virginal com o desenho de um falo é coisa que não se faz!

Por enquanto apenas vejo aqui explicada a simplicidade da nossa ignorância. Talvez essa seja uma tarefa bem mais difícil do que tentar explicar o universo.

De alf a 20 de Novembro de 2008 às 22:30
AH AH, essa está muito bem observado! Confesso que não pensei nisso... mas tem toda a razão.

Estes dois posts são algo aborrecidos. Mas pareceu-me importante não deixar passar em branco que o momento do CMB é muito mais que o simples terminar de um gás quente, é antes uma espécie de «estrela dos Reis Magos» que surge nos céus para nos indicar o caminho... é isso mesmo, a Radiação Cósmica de Fundo é a «Estrela dos Reis Magos» da Cosmologia!

Você inspira-me, meu caro António!

De Diogo a 21 de Novembro de 2008 às 21:09
«“Então vou FINALMENTE começar a explicar o Universo. Preparem-se para a Magia da Simplicidade!”»

Vamos a isso, então!
De Metódica a 21 de Novembro de 2008 às 22:55
Viva!!!

A leitura está finalmente em dia!!

Meu caro, estou confortavelmente sentada e preparadadissima para a magia da simplicidadade e do Universo
De alf a 21 de Novembro de 2008 às 23:38
Bem, com tal assistência tenho de me esmerar!

(hummm..... se calhar terei de abandonar um pouco o outramargem para me concentrar nisto... a ver vamos)
De anonimodenome a 22 de Novembro de 2008 às 10:39
força meu amigo. da crise já ninguem nos safa.
mas para sairmos da ignorância podemos contar contigo.
somos poucos mas não é por isso que esmorecemos.
Venham de lá os Reis Magos e as estrelas galáxias, buracos negríssimos, etc...e por fim o famoso e muito aguardado,quase em desespero, Teorema de Pitágoras.
De c_oliveira@netvisao.pt a 28 de Novembro de 2008 às 22:39
Cheguei até aqui por intermédio de outros leitores seus que me comentam.
Muito interessante o seu blogue, não só por abordar assuntos que são também do meu interesse, como pela forma despretensiosa e divertida como o faz.
De alf a 2 de Dezembro de 2008 às 13:19
c oliveira, obrigado pela sua visita e pelas suas palavras amaveis; conseguir uma forma despretensiosa, simples, clara, sedutora, divertida, de expôr esta visão do Universo é o meu objectivo, mas confesso que me estou sentir bastante aquém deste objectivo que não é simples. Vale-me o estímulo dos amáveis comentadores!
De Peter15 a 28 de Novembro de 2008 às 22:50
Se não se importa, vou incluir o seu blogue nos nossos links. Gostaria de abordar mais detalhadamente os diversos assuntos que explana.
Para começar temos a "radiação do corpo negro" por se tratar de um assunto que me escapa.
De alf a 2 de Dezembro de 2008 às 13:30
Peter15

Obrigado pelo seu interesse.
Tem razão ao referir a radiação de corpo negro, é assunto que eu talvez devesse ter esclarecido; limitei-me ao link para a Lei de Planck. Tenho aqui um problema de extensão, este blogue é um livro, tem de ser lido desde o princípio para poder ser entendido; para evitar que fique grande demais, os posts são apenas sobre as ideias novas e não sobre coisas já estudados; mas a verdade é que muitas das coisas «já estudadas» carecem de ser apresentadas numa linguagem que explicite as ideias por detrás das fórmulas.

É uma honra estar linkado no vosso interessante blogue; se não se importar, vou tb pôr um link para o vosso no meu blogue «outramargem-alf»
De Peter15 a 2 de Dezembro de 2008 às 19:59
Meu caro "alf"

Só hoje li o seu e-mail pois é raro vir aqui . Gostaria de me manter em contacto consigo. Por favor, qd quiser escrever faça-o para:
conversas.xaxa@gmail.com

Já coloquei o seu blogue nos n/links. Qd quiser passar pelo blogue, tem ao seu dispor, na coluna da direita, com o título "Universo fantástico", julgo que oitenta e tal artigos publicados por mim.

Foi um prazer conhecê-lo,
Peter
De __gArY__ a 5 de Dezembro de 2008 às 12:10
Caro amigo alf certo? Primeiramente queria me apresentar, meu nome é Hugo Ary sou do Brasil, tenho 21 anos estudo medicina na faculdade e física por hobbie . Percebo que vocês são a grande maioria de Portugal correcto ?. Contudo indo direto ao assunto estou simplesmente fascinado. Não sei bem nem por onde começar. Digamos assim que de uma forma geral sua visão de como ve e como interpreta o universo e as teorias que tentam explica-lo se assemelha em genero , numero e grau com a minha forma, meu jeito. Pelo menos até onde li, comecei a ler ontem e parei no mês de Setembro . Vamos ver até onde as semelhanças continuam. Só por curiosidade queria saber és físico? tem a ambição de levar suas idéias a frente?
ps: já peço desculpa pela ortografia, mas existem diferenças entre a gramática de nossas línguas.
De alf a 5 de Dezembro de 2008 às 14:43
Amigo Hugo Ary, fico muito feliz por se ter interessado por estas ideias que estou a apresentar. Que são mesmo para levar para a frente, mas será um processo longo - o caminho das novas ideias nunca é fácil é alimenta-se do entusiasmo de jovens como o Ary, que irão formando um novo modelo do Universo pelo contacto com estas questões.

Os físicos actuais, que aprenderam as teorias actuais, fizeram exames sobre elas, trabalharam nelas, construiram a sua carreira nelas, de modo algum deitarão fora aquilo que já se tornou parte integrante deles mesmos para abraçar um novo modelo. Essa tarefa é dos jovens.

Por isso, este processo será lento. Enquanto o vamos construindo, iremos descobrindo coisas muito inesperadas sobre o Universo.

Um abraço
De __gArY__ a 5 de Dezembro de 2008 às 15:53
Só queria citar uns pontos para exemplificar essas semelhanças que me refiri.

Por exemplo: questão do enfoque do observador variar conforme epoca. eistein, newton, ptolomeu.
Medidas absolutas, referencial atomico, do conceito de matéria compostas por campos, de como a velocidade pode influenciar nesses campos. Da diferença entre a ciencia de explicar fenomenos, para uma preocupada com a compreensão de um todo. Todos esses conceitos ou raciocinios, não sei como definir, já tinham me ocorrido e até entrei em foruns para discuti-los. Por isso meu espanto, li 3 meses de seu blog em 1 dia de tamanha surpresa.

De alf a 7 de Dezembro de 2008 às 04:48
Eu também fiquei surpeendido quando comecei a encontrar nos lados o rasto de pensamentos iguais aos meus.

A esmagadora maioria das pessoas não pensa nestes assuntos, adopta as ideias «mainstream»; daí que quem pensa, que é muito menos de 1 em 1000, aquire a sensação de que as suas ideias serão únicas. Mas não são.

Só que para que as ideias possam ser apresentadas têm de ser corporizadas num modelo do Universo; e isso representa um trabalho imenso porque significa construir todo um edifício do conhecimento.

Antes de Copérnico muitos outros consideraram a possibilidade de um sistema heliocêntrico; mas não construiram um modelo consistente. Fazê-lo custou quase toda a vida de trabalho do Copérnico, do Galileu, Keppler e Newton.

Estas ideias andam por aí, mas falta-lhes uma primeira estrutura onde se possam encaixar; é essa estrutura que eu procuro trazer aqui.
De Peter15 a 5 de Dezembro de 2008 às 13:51
Queria falar consigo sobre o um artigo, ou melhor, são vários artigos subordinados ao mesmo tema e publicados no nº deste mês da revista “Sciences et avenir”. Trata-se dum dossier realizado por David Larousserie: “La deuxième révolution quantique” e abrange as págs 48-61.
Para mim é muito difícil de ler, tenho do fazer página a página, lendo e relendo e depois desisto e volto ao princípio. Não tenho tempo, nem paciência, nem bases…
Mas se tiver oportunidade de apenas folhear a revista numa livraria, veja o intrincado das curvas calculadas e realizadas pelo físico Emmanuel Desurvire que representam (quanto a ele…) um “estado quântico intrincado com ele próprio e o resto do Universo”. Abrange as págs 48 e 49 e é de pôr os olhos em bico.
De alf a 7 de Dezembro de 2008 às 05:00
Vou ver isso assim que puder. Mas não me surpreende. Os modelos matemáticos com que a ciência descreve o universo partem de conceitos errados e tentar depois «explicar» amontoados de parametros resulta no mesmo tipo de ideias que as pessoas ignorantes desemvolvem para explicar o que ignoram.

A única alternativa é esquecer toda a teoria, coleccionar todos os factos, e começar a raciocinar de novo; e, mesmo, assim, é preciso conseguir encontrar conceitos menos errados que os actuais.

Na resposta ao comentário anterior refiro que um trabalho desse tipo exigiu o esforço das vidas de Copérnico, Galileu e Newton, principalmente; mas as pessoas que trabalham na ciência têm de publicar artigos, não podem gastar a vida a perseguir algo que não gera artigos publicáveis. Os casos acima foram suportados pela Igreja, por mecenas e pela fortuna pessoal.

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