Domingo, 28 de Setembro de 2008

O Tempo que o Tempo tem (3)

O Fim dos Tempos? Mas isso existe? Se o Tempo tiver fim, o que vem depois?”, a Luisa com um grande sorriso maroto.

 

É que há Tempo e Tempo, Luísa. Há mais que um Tempo. Até já conheces dois: o Tempo Atómico, que é o tempo associado à matéria, e este Tempo independente da matéria em que nós viajantes da Cápsula do Tempo nos encontramos.”

 

O que chamaste de Tempo R ou de Referência?

 

Exactamente Ana. Este é um Tempo associado ao Espaço, ao medium que suporta as perturbações que identificamos como matéria ou radiação. O Tempo Atómico é invariante em relação à Matéria, o Tempo R é invariante em relação ao medium.”

 

E há mais Tempos?”, o  Mário com um sorriso que me parece um pouco trocista; não resisto a picá-lo:

 

Porque não, Mário? Porque haveria o Tempo do medium ser o Tempo dos Deuses? Temos sempre aquela tendência terrível de presumir que não existe o que não conhecemos...

 

Lá começas tu!” Algo irritado, o Mário; bato em retirada de volta à conversa com a Luísa:

 

Portanto, no quadro do Desvanecimento, esta geração de matéria tem um Tempo associado, o Tempo Atómico, que se extinguirá com ela. Vamos avançar no tempo à procura desse momento. Vamos experimentar, por exemplo, 100 mil milhões de anos no Tempo de Referência.” Escrevo «100» na janela do tempo R da minha folha de cálculo e mostro o resultado:

 

 

 

 

 

Quase 3 milhões de milhões de anos no Tempo Atómico? Ena, os terrestres envelheceram muito mais depressa do que nós!” ri-se o Mário.

 

Exactamente, o Tempo Atómico flui cada vez mais depressa, à medida que os átomos e as dimensões dos corpos diminuem; daqui a 100 mil milhões de anos os corpos terão uma dimensão que será de 7 milésimas da actual.”

 

Então qual será o tamanho dos terráqueos?

 

Ora, com uma folha de cálculo na frente é fácil saber”, riu-me, “menos de um palmo, menos de 15 cm! Do tamanho de uns ratitos... quanto à Terra, teria de raio pelas nossas unidades actuais... menos de 50 km... nenhum humano conheceria duas vezes a mesma estação do ano porque a sua vida duraria cerca de meio ano na nossa escala de tempo.”

 

Bem, até bate certo...” Luísa deixa suspenso um sorriso misterioso.

 

O que é que bate certo?” Foi o Mário quem mais depressa cedeu à curiosidade.

 

Os ratos civilizados, ou seja, nos países civilizados, vivem 6 meses...” Luísa explodiu a rir com a cara do Mário, e não ficou sózinha, é claro. Mas percebo que tenho de avançar mais depressa antes que se distraiam.

 

Vamos andar mais para a frente a vêr o que sucede”. Escrevo agora «200» na janela do Tempo de Referência. Caem os três em cima de mim enquanto formato as janelas do meu contador para caberem os novos resultados.

 

 

 

Quatro... quatrocentos milhões de milhões de anos no Tempo Atómico! Livra, esse relógio atómico está a andar mesmo depressa!

 

Cresce exponencialmente com o Tempo de Referência, Mário; dobrei o tempo de referência e o tempo atómico aumentou mais de cem vezes porque a sua unidade de tempo já é muito mais pequena que a nossa; nesta altura o tempo atómico que já avançamos é 2000 vezes o tempo de referência.”

 

Interessante...” a voz suave da Ana domina subitamente o ambiente, “existe imenso Tempo Atómico dentro do Tempo de Referência...

 

Estás a perceber, Ana, como, para um observador exterior, gerações de matéria de duração quase infinita se podem suceder em intervalos de tempo finitos... como se pode meter o infinito dentro do finito... estás a ver o Tempo que o Tempo tem?

 

O Tempo Atómico que o Tempo de Referência tem...”, precisou o Mário, pensativo.

 

E os humanos, seriam de que tamanho?” noto a Luísa menos jocosa.

 

Vinte mil vezes mais pequenos... menos de um décimo de milimetro! Numa Terra com 300m de raio. Vivendo pouco mais de um dia, ou seja, de uma rotação da Terra. Às escuras, a luz do Sol seria mil vezes mais fraca que o luar de hoje. Isto, claro, no cenário de fantasia que estamos a fazer, ignorando a evolução da organização da matéria.”

 

E o desvanecimento continua indefinidamente?

 

 

 

publicado por alf às 16:34
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18 comentários:
De Diogo a 28 de Setembro de 2008 às 20:54
É extraordinário o castelo de cartas que você continua a construir (of thin air). Evidentemente, os seus alter-Watsons (Mário e Luísa), continuam a alimentar-lhe o debate...
De alf a 29 de Setembro de 2008 às 01:13
Diogo


Estou a começar devagarinho. À medida que fôr avançando irá vendo o «castelo de cartas» transformar-se em inexpugnável fortaleza. Conto consigo para a tentar derrubar - para ter a certeza que não há nenhuma frincha nas paredes


De alf a 29 de Setembro de 2008 às 01:39
Diogo, eu pensei inicialmente em fazer como o Galileu e pôr o Mário a dizer todos os disparates que a ciência actual sustenta; mas o Galileu tramou-se por causa disso e temos de aprender com a experiência dos outros, não é?

O Mário representa assim o melhor que a Ciência tem e não o típico. E mais: vou aproveitar até ao limite o «edifício do conhecimento» existente, provar que está certo aquilo que nele está feito, apesar de, com uns pequenos retoques, o ir transformar em algo completamente diferente - para uso das gerações vindouras, porque esta dificilmente o entenderá.

De alf a 30 de Setembro de 2008 às 01:30
diogo

Olhe este link maravilhoso:

http://math.ucr.edu/home/baez/crackpot.html

pode já começar a somar os pontos...
De Curioso a 28 de Setembro de 2008 às 23:11
Boas...

Que viagem extraordinária... Daria um livro de ficcão científica maravilhoso... tipo "Viagem fantástica ao cérebro".
Continuo maravilhado com esta forma de ver o Universo; elegância, simplicidade e subtileza.


Ps: Seria o primeiro a comprar o livro se ele saísse...

Ps2: No livro referido acima um cientista russo descobre um processo de miniaturizar objectos através da diminuição da constante de Planck num espaço limitado... pode-se dizer que têm algo de comum com o desvanecimento.


Curioso.
De anonimodenome a 29 de Setembro de 2008 às 00:07
me desculpem meus amigos, mas à quase 20 anos que eu aguardo o livro.
estávamos a fazer os projectos de legalização das rádios locais e, estando precisado de papel de rascunho, arranquei uma página impressa do caixote do lixo e fiquei pasmado ao ler o conteúdo.
Pertencia aos primeiros documentos sobre o Desvanecimento. Perguntei por quem escreveu e pedi mais alimento.
e fiquei rico de sabedoria.
Não sei se fui o primeiro adepto. mas o alf pelo menos assim o afirmou. creio eu.
entretanto é bom saber que outros também já partilham desta sabedoria.
portanto, quanto ao livro, estou na fila desde ... amigo Curioso não vale ultrapassagens.


De alf a 29 de Setembro de 2008 às 01:22
anonimodenome

Não há problema, não fazem edições de menos de 1000 exemplares!
De alf a 29 de Setembro de 2008 às 01:20
Olá Curioso

É uma viagem desse tipo - ou quase. Ainda bem que alguém escreveu histórias dessas, porque é meio caminho andado para percebermos o que acontece no Desvanecimento; e ainda bem também que alguém escreveu o Guliver porque a seguir iremos recuar no tempo, em direcção a átomos sucessivamente maiores...

Obrigado pela amabilidade das suas palavras. O livro há de sair e eu farei questão de oferecer um exemplar aos meus comentadores - é para vocês que eu estou a escrevê-lo.
De anonimodenome a 29 de Setembro de 2008 às 00:12
a talhe de foice, permitam-me a propaganda, mas também já estou na fila para o primeiro livro do amigo António (do EmLivro).
não percam o seu blog.
e o outramargem-alf também é para ler todo desde o princípio.
De alf a 29 de Setembro de 2008 às 01:25
meu amigo, estou em querer que serás um excelente agente literário! Estás disponível?
De antonio a 30 de Setembro de 2008 às 08:22
O quê? Já estamos a entrar na era do pós desvanecimento?

Esta sua teoria entra em contradição com o pixel . Você pode comprimir o átomo , a molécula e o protão, é fácil! Mas experimente com os pixéis . Sai logo borrada.

O limite do universo é o pixel .
De alf a 30 de Setembro de 2008 às 11:52
antónio

Genial! é uma excelente imagem!

O pixel é a unidade estruturante do medium onde os desenhos existem. Há um tamanho mínimo para o desenho: o tamanho do pixel!!! Num programa de desenho pode ir reduzindo um desenho o que quiser, até chegar a esse limite!

Por outro lado, o conjunto dos pixels forma o «espaço» onde o desenho pode existir; este nasce de pixels perturbados, ou seja, que adquiriram uma cor diferente da cor do fundo.

Quando faz um filme, os pixels não se movem - é apenas a sua perturbação (côr) que se propaga entre eles.

Deus é um desenhador...
De antonio a 30 de Setembro de 2008 às 20:21
Brilhante! Afinal é tudo tão simples!
De Diogo a 30 de Setembro de 2008 às 22:02
Alf,

Você está a desvanecer-se a pouco e pouco. Quando chegaremos à Relatividade? Para a sova mestra?
De alf a 1 de Outubro de 2008 às 02:14
Diogo, de certa forma já estamos na Relatividade; estamos a perceber a relatividade do Tempo Atómico (o nosso) em relação a um tempo de referência, e estamos a perceber que as dimensões, massas, cargas e tempo podem variar sem que nós o possamos detectar, ou seja, que relativamente a nós tudo se passa como se nada variasse.

Isto é a essencia do Princípio da Relatividade - as coisas variam mas nós, porque variamos com elas, não damos por nada.

A relatividade restricta do Einstein é o caso particular da variação das propriedades físicas com a velocidade; a Generalizada com o campo: o Desvanecimento com o tempo. São 3 casos particulares do Princípio da Relatividade.

Do ponto de vista matemático, a desvanecimento é o mais simples, por isso a importância de começar por ele - eu não estou a escrever para cientistas.

Vai ter de aguardar um pouco pelas outras relatividades... há tantas coisas fascinantes no Desvanecimento... tenha um pouco de paciência e vá apreciando...


De Metódica a 26 de Outubro de 2008 às 16:51
hmm...

O fim do tempo é o espaço! O tempo pode acabar mas o espaço permanece :)

O infinito dentro do finito: isso soa a fractais
De alf a 26 de Outubro de 2008 às 18:20
Metódica

Isso mesmo, soa a fractais! Não me tinha lembrado disso, mas é uma boa imagem. Tal como nos fractais, aqui passa-se um processo de sucessiva redução de escala com conservação de propriedades geométricas locais. Boa ideia!
De Metódica a 26 de Outubro de 2008 às 21:37


Humm isso deu-me uma ideia para o método =D
Mas que só deverá aparecer la para o fim de semana ou, com mt azar na outra hihi

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