Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O Voo do Pombo Correio

 

 

There is, therefore, a fundamental question to answer: is it possible to build a model where scale changes in a way that cannot be detected by local experiments?

 

Outra vez? Já leste isso Luísa!

 

Não tenho culpa, ele é que repetiu... e agora a letra muda, parece letra de médico... deixa-me ver se percebo... diz ele que... Não, não posso fazer assim! Estou a pensar à engenheiro, não à cientista. O objectivo do engenheiro é resolver o problema e por isso o procedimento dele é identificar o problema, procurar uma solução, um modelo, independentemente de tudo o resto, e só depois procura compatibilizar o novo conhecimento com o conhecimento anterior. O objectivo do cientista é construir um edifício do conhecimento – face a novos dados, o que ele faz é analisar o conhecimento anterior e procurar obter dele um desenvolvimento que explique os novos dados. Ou seja, enquanto o engenheiro dá prioridade aos novos dados na análise do problema, o cientista quase que os ignora. Foi o que fez o Einstein, ele obteve a Relatividade especial ignorando o resultado de Michelson-Morley; e o mesmo na Relatividade Geral, onde ele se baseou apenas na equivalência conhecida das massas inerciais e gravíticas.Luísa levanta os olhos para o Mário, espera certamente uma opinião.

 

Sim, de facto o Einstein ignorou ostensivamente o resultado de Michelson, o que faz um bocado de confusão... mas não sei se a opinião do Jorge está correcta, afinal o Minkowsky obteve depois a Relatividade Especial directamente a partir da constância da velocidade da luz e é a versão de Minkowsky que é universalmente utilizada hoje.”

 

Sim, mas a questão para o Jorge será saber se a versão do Minkowsky teria sido aceite se tivesse sido feita antes da do Einstein.”

 

Ah, pois, isso parece-me uma questão pertinente... realmente, não estou a ver que uma teoria que postula que a velocidade da luz é constante em relação ao observador, qualquer que seja o movimento deste, pudesse ser aceite...

 

Luísa voltou a concentrar-se no caderno:

Portanto, não posso deduzir a teoria a partir da variação de escala observada, porque isso é um dado novo, tenho de o fazer a partir do conhecimento anterior. Como é que o posso fazer? Tenho de me ater ao Princípio da Relatividade, mostrar que a generalização dele não está concluída, e prosseguir pelas leis fundamentais que sei dele deduzir; ou seja, vou fazer como Newton e estabelecer algumas novas leis fundamentais, deduzidas do Princípio da Relatividade. Hummmmm.... mas como é que sem recorrer aos resultados observacionais eu posso definir qual é a atenuação da radiação no tempo? Seguem-se uns gatafunhos, parece uma espiral com uma ave na ponta... uma ave a voar em círculos? Vou virar a página.”

 

“ O Jorge está em sofrimento, coitado...

 

O Einstein modificou as Leis Físicas a partir do Princípio da Relatividade. Eu também tenho de modificar as leis Físicas; posso fazer isso a partir dos resultados observacionais mas a análise é muito mais extensa e complexa; ou posso recorrer ao Princípio da Relatividade como instrumento para a formação de Leis. Não foi o Einstein que disse que o PR era a Lei das Leis? É um risco que a grande simplicidade de análise assim obtida pode compensar. O meu Princípio de Maya é que dava jeito, mas só o poderia usar se ele já tivesse sido enunciado anteriormente. Olha, agora muda para letras garrafais:

 

Em conclusão, não vou fazer uma análise do problema específico das observações cosmológicas mas sim uma reflexão sobre factos já conhecidos; dessa reflexão resultam duas coisas: novas Leis e uma generalização do Princípio da Relatividade à posição no tempo; desta generalização vai resultar a modificação de algumas Leis Físicas, suportando uma nova teoria cosmológica. Assim faço crescer o «edifício do conhecimento» a partir dele próprio... parece-me bem!

 

Penso que o Jorge está muito enganado. Não adianta nada estar a tentar explicar ideias, as pessoas nunca as percebem. Só interessa «produtos acabados». É por isso que a análise de Minkowsky fez esquecer a de Einstein – o Einstein expõe ideias, raciocínios lógicos, compreensão dos fenómenos, enquanto o Minkowsky apresenta uma calculogia que dá certo no fim. É só isso que interessa às pessoas, a «fórmula resolvente» em si mesma, a maneira como se chega a ela não interessa nada.” O Mário faz uma pausa para pensar; continua:

“O Jorge está a tentar ser acolhido no seio da Ciência, mas tem tantas hipóteses como uma mulher de chegar a Papa. Mesmo os próprios cientistas, quando têm ideias fora do mainstream científico, o que fazem é escrever um livro, sabem que é inútil tentar publicar tais ideias no sistema científico. Porque é que ele não escreve um livro?

 

Porque o objectivo dele está para além da divulgação desta ou daquela teoria. Não sei se ele está certo ou errado, mas sei que está convencido que é necessário que esta teoria surja como uma realização da Ciência e não à margem dela.”

 

Mário e Luísa ficaram à espera que a Ana continuasse, mas ela nada mais diz. Luísa vira a página do caderno do Jorge.

 

 

publicado por alf às 17:15
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22 comentários:
De Diogo a 30 de Dezembro de 2009 às 20:42
Deixe lá de rabiar Alf! Explique lá a teoria da relatividade restrita (ou tenho de ser eu?). Se esta se mostrar falsa, tudo o resto é um castelo de areia.
De alf a 31 de Dezembro de 2009 às 02:49
Diogo, eu não preciso nem dependo da Relatividade Restrita para explicar o Cosmos.
Quando eu falar da RR, não é para dar mais uma opinião, é para encerrar o assunto; isso não pode ser feito agora porque eu não tenho credibilidade para tal; terá de ter paciência. Para percebermos o Universo precisamos de muita calma... ou então andamos apenas a fazer ruído, um ruido que se extingue no instante que é produzido, sem consequências.
De antónio -o implume a 31 de Dezembro de 2009 às 00:09
Alf e o pombo correio? O pombo correio apenas conhece o destino e isso basta-lhe para lá chegar... o caminho é um mero contratempo!
De alf a 31 de Dezembro de 2009 às 02:51
António

O Pombo correio não inicia o seu voo ao acaso; como é que ele faz?
De antónio -o implume a 31 de Dezembro de 2009 às 11:02
Alguém o liberta, alguém lhe incutiu a saudade... os pombos correios são todos portugueses, e devem apreciar o fado!
De Diogo a 31 de Dezembro de 2009 às 02:59
Que sabe você do Cosmos, meu amigo?
De alf a 31 de Dezembro de 2009 às 13:33
O saber mede-se pela dimensão da percepção do que se ignora.

Não viu os meus posts sobre a sequência de máquinas perfeitas? A Inteligência do Universo? Os Mistérios? Não estou eu a começar a expôr uma compreensão do Universo que nada tem a ver com aquilo que se ensina? E ainda estou mesmo no principiozinho... mas é preciso começar por «abrir a mente» para que o que vem a seguir possa entrar.

Fazemos uma combinação: em 31 de Dezembro de 2010 você me dirá o que sabe sobre o cosmos.
De anonimodenome a 2 de Janeiro de 2010 às 00:01
Os pombos são monogâmicos (acasalam para a vida toda, quem diria ser possível) e os criadores provocam ciúmes nos pombos para os obrigar a regressar o mais cedo possível ao pombal.

Quanto ao descobrir o caminho de volta é mais difícil.
Creio que se elevam e voam em círculos primeiro e só depois partem para a origem e que usam o magnetismo terrestre para se orientarem.

O problema de navegação é complexo quer pretendam seguir o caminho mais curto quer queiram replicar o caminho inverso.

Um bom ano para todos.
De alf a 2 de Janeiro de 2010 às 02:27
pois é, o pombo correio começa por voar em círculos até saber a direcção certa e só quando está seguro dela é que parte. O mesmo se passa com estas minhas derivas filosóficas - são o detalhe que vai decidir da aceitação ou rejeição do trabalho.

A orientação do pombo correio e outras espécies é um perfeito mistério para nós. Só o conseguimos reproduzir dispondo de um sistema GPS. Terão um acelerómetro na cabeça que integra todas as voltas que dão quando são deslocados? Isso é altamente sofisticado mas não mais que o sistema visual ou auditivo.

De gary a 2 de Janeiro de 2010 às 13:33
Alf, queria fazer 4 perguntas:

Você fala de um modelo independente de escala, um modelo onde a escala varie, um modelo onde a escala muda sem ser detectada por experimentos locais. Está a se referir sempre do mesmo modelo?

Outro ponto que não compreendo bem é porque é tam dificil criar um modelo onde haja variação de
escala?

Quando vc diz que Eistein ignorou o experimento MM está se referindo ao fato de o experimento ter
concluído que não havia um "meio" de propagação para a luz?

Perdoe a ignorância, mas muito já li a respeito do PR. Já li as palavras de Eistein, professores
explicando de seu modo, mas confesso que ainda não tenho uma definição clara do PR em minha
cabeça. Será que podia me clarear este conceito?

Feliz 2010 e estou no aguardo da generalização do PR.
De alf a 5 de Janeiro de 2010 às 19:12
Olá gary, feliz 2010 para si também

escala: sim, estou a referir-me sempre ao mesmo modelo.

Qual é a dificuldade? é a escala ser diferente e as leis físicas serem as mesmas. Imagine um Universo onde os átomos têm o dobro do tamanho dos nossos, onde tudo tem o dobro do tamanho, e que tenha as mesmas leis físicas - ou seja, onde uma pessoa de lá faça desse universo exactamente a mesma descrição que fazemos do nosso. Como seria esse Universo?

A Terra teria o dobro do raio; se tivesse a mesma massa que a nossa, a aceleração da gravidade à superfície seria 1/4 da nossa, medido com as nossas unidades de medida; mas as unidades desse universo seria diferente - se os átomos tivessem o dobro do tamanho, a unidade de comprimento seria também o dobro. E a unidade de tempo, como seria? Se fosse também o dobro da nossa, então nas unidades dessa universo a medida da aceleração da gravidade seria 1/2 da nossa e a descrição desse universo não seria a mesma. Outras coisas têm de variar para que a descrição possa ser mesma. quais? a Massa? G? e como? e porquê?

Um modelo de variação de escala é um modelo em que as dimensões variam mas as leis físicas, em cada instante, são as mesmas.

Na verdade, não é muito dificil de fazer; mas admitir que possamos estar a variar de escala sem dar por isso é um pouco como admitir que a Terra roda sem que o percebamos.

A experiência de MM não concluiu que não havia um meio; ela concluiu que a velocidade média da luz num percurso de ida e volta é constante. Este é um resultado inesperado porque se sabia que a velocidade da luz é independente da velocidade da fonte e, como a Terra não está «parada», este resultado surpreende.

O Einstein desenvolveu a Relatividade Especial com base no Princípio da Relatividade e na independencia da velocidade da luz em relação à fonte. Obteve o resultado de MM como consequência.

Experimente passar os olhos pelos posts da etiqueta «Relatividade» no blogue outramargem-alf@blogspot.com e depois voltamos a falar, ok? Vai ficar com duvidas concerteza, mas depois será mais fácil discuti-las.
De Metodicca a 19 de Fevereiro de 2010 às 17:03
Ehehe, não me diga que recebeu queixas de profs por os seus alunos andarem a consultar os seus blogues ;P
A verdade é que alguns dos seus textos ajudam a perceber matérias que são leccionadas no secundário :D

Sempre tive ideia de que um físico estaria mais ou menos entre um matemático e um engenheiro, a tender mais para um lado ou para o outro dependendo dos casos.
A ideia de prestar mais atenção à informação inicial para, daí mostrar a nova teoria é semelhante ao procedimento matemático da demonstração! :D
Parece-me uma boa opção ;)
De alf a 20 de Fevereiro de 2010 às 00:35
os meus textos podem ser um perigo para alguns alunos, reconheço, é por isso que eu escrevi um aviso na pagina. Há muitos blogues a explicar a física «oficial» e não me ocorreu que pudessem confundir este blogue com um desses.

Estou inteiramente de acordo contigo. Aliás, penso mesmo que os matemáticos tomaram conta da física e que quem quer mesmo saber física deve optar por um curso de engenharia.

No texto que estou a preparar escrevi:

Establishing as clearly as possible the framework in which a theory is build is of utmost importance. In Mathematics that is quite straightforward because the universe of analysis is fully known and the theory is deducted from hypotheses. In Physics the deduction is not from hypotheses but from observational results, either directly or from general properties obtained by induction, and the universe of analysis is not fully known. For instance, in Mathematics one can state as hypothesis «c= constant» but in Physics one cannot state «light speed is constant» because one can only refer to some measure of light speed and one has to clarify how is such measure made and which are the presumptions behind the measuring methodology. After a theory is established in Physics terms, after the relevant facts be all identified and the universe of analysis closed, then a mathematical theory can be build that elegantly obtains the results made solid by the physical analysis and confirmed by observations, as it happens with Minkowsky work on Einstein’s Special Relativity.

Nestes posts andei à procura de caminhos para ultrapassar a tal dificuldade inerente às ideias novas que referiste no teu comentário anterior; já testei muitos caminhos, vamos lá a ver se acerto...
De Metódicca a 20 de Fevereiro de 2010 às 01:19
A física e a matemática são diferentes.
A matemática é muito mais objectiva quando estamos a falar de mostrar que algo é verdade, sabemos que temos que demonstrar tal facto a partir de premissas. As demonstrações variam, umas requerem mais ou menos criatividade, mas o método é o mesmo.
Eu não estou muito por dentro dos métodos que os físicos usam, mas acho que esse texto explica bem o procedimento :)
O 'problema' dos físicos é que têm que ter em conta uma série de parâmetros que têm que estar de acordo com a teoria para que a matemática consiga provar o que é enunciado...
Mas uma coisa é certa duvido que alguém vá contestar uma teoria que seja correctamente demonstrada (claro que posso estar a ser ingénua)

Tenho a certeza de que encontrará o caminho certo, afinal alguém tem que guiar esta viagem pelo conhecimento
De Curioso a 19 de Fevereiro de 2010 às 23:26
Olá...
Já estou com saudades dos velhos tempos..
Este pombo de correio leva mesmo muito tempo a orientar-se.

Curioso.
De alf a 20 de Fevereiro de 2010 às 00:48
Olá!

Pois eu também já estava com saudades suas!

Pois é, o pombo correio é de compreensão lenta... se calhar só volta com a Primavera... o artigo exige-me muito tempo, não quero estar a dispersar-me senão nunca mais está concluído.

Mas é bom ver que ainda há quem não tenha esquecido esta pequena aventura.... que ainda não acabou, há muito pela frente.

Um abraço
De susana a 12 de Março de 2010 às 22:30
Olha que não foi fácil chegar aqui... Sinto-me desprezada. Vou amuar.
;)
De metodicca a 15 de Março de 2010 às 20:09
Alf

Dúvido que alguém se tenha esquecido ;)
Vá que estamos todos curiosos e queremos mais :D

Bjinho**
De Curioso a 14 de Março de 2010 às 12:22
Vamos lá Alf.
Sei que o seu artigo é mais importante que qualquer outra coisa...
Não nos deixe tanto tempo sem notícias...
Abraço.
Curioso.


PS. Faça o que tem a fazer.
De alf a 16 de Março de 2010 às 02:52
Amigas e amigos, vou abusar da vossa paciência e começar a pôr aqui o texto do artigo para vocês criticarem, apontarem tudo o que vos parecer confuso, ou chato, ou mesmo errado. Não vou pôr tudo, as partes mais matemáticas quem estiver interessado poderá depois consultar, quando o artigo estiver disponível numa qq base de artigos. O que vou pôr pretende ser ideias fundamentais acessíveis a quem tiver algum interesse em Física; mas sei que algumas coisas não serão comprensíveis facilmente, portanto, não hesitem em perguntar que eu procurarei esclarecer. Com a vossa colaboração o texto ficará muito melhor.
De Metócica a 16 de Março de 2010 às 17:39
Ficamo à espera
De Curioso a 16 de Março de 2010 às 20:57
excelente ideia..
vamos a isso.
Curioso

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