Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Abstract

 

Ena, está escrito em inglês...surpreende-se a Luísa,e o título é: Abstract! Não me digam que o Jorge escreveu um texto sobre arte!

 

Não, não, isso não é um título; «abstract» é «sumário» em inglês, os artigos científicos começam sempre por um «abstract»; isso deve ser a minuta de algum artigo que ele estará a preparar.O Mário pegou no caderno para confirmar. “É isso mesmo, isto é o rascunho de um artigosentenciou e devolveu o caderno à Luísa. “Lê tu que eu percebo mal a letra dele.

 

Bem, cá vai: The concept of «rigid body» is a pillar of today’s physics models; however, the fact that one can not detect by local experiments a variation in atomic length unit is not an evidence of its invariance, somehow as the fact that one can not detect by local experiments Earth motion is not a proof that Earth “does not move”.Luísa pára de ler. “Não percebi nada; o que é isto do «rigid body»?”

 

Quando estás a medir um comprimento, presumes que o teu metro não varia de tamanho ao longo da medida, não é?

 

Claro! Se variasse, a medida não fazia sentido!

 

Isso mesmo; portanto, presumes que o teu metro é invariante, é um «corpo rígido»; em ciência também se presume que a unidade de comprimento é invariante, isto é, que o seu tamanho hoje é igual ao de ontem, não depende do tempo, como não depende da direcção, da velocidade, do campo, ou do ponto do espaço onde nos situamos.”

 

Presume-se? Não se sabe?questiona a Ana.

 

Nada nos indica que não seja invariante, embora, num continuum material, isso não se possa detectar. Pode fazer-vos um pouco de confusão, mas se todos os corpos forem igualmente esticados numa direcção, nós não damos por nada porque tudo varia da mesma maneira, o metro e os objectos a medir. Por isso, mesmo que os corpos não sejam rígidos, isso nada altera. Não vejo qual seja o interesse em discutir esse conceito. Mas continua, Luísa.

 

In both cases, it is exactly the impossibility of measuring the change that reveals fundamental properties of the Universe. In this paper, it is presented an unknown geometrical property that allows the metric of space to hold in a «non-rigid body» universe; this is a first step in building a model of the Universe free from «rigid-body» concept. Surpassing the idea of «rigid body» corresponds somehow to surpassing the idea of geocentrism. Ena, esta parece-me forte… estavas a dizer que discutir o «rigid body» não interessa e ele vem dizer que é um conceito como o geocentrismo...

 

Mário fica pensativo. “Bem, num continuum material, que é a situação que temos na Terra, não interessa; agora, se for num sistema de corpos isolados no espaço, já pode não ser bem assim, porque as distâncias entre corpos não mudam, portanto qualquer alteração dos corpos, do «metro», origina alteração nas medidas das distâncias. Lembro-me agora de ter lido há algum tempo, já não sei onde, que o Riemann se preparava para acabar com o conceito de «corpo rígido» quando morreu de tuberculose. A senhora das limpezas encarregou-se de deitar fora os seus papéis, por isso não se sabe nada dos seus estudos não concluídos. O Riemann foi quem desenvolveu a geometria que permitiu ao Einstein fazer a Relatividade Generalizada.”

 

Então achas que o Jorge fez o que o Riemann queria fazer?

 

Bem, acho que isso seria muita areia para a carroça do Jorge... ele pareceu-me mais empenhado na Física do que na geometria... além disso, se o metro variasse, com a direcção por exemplo, isso notar-se-ia nas medidas espaciais, a geometria ficaria alterada... não, o Riemann já deveria estar doente quando disse isso, o facto é que nunca ouvi falar dessa possibilidade, se isso tivesse alguma razoabilidade certamente que seria objecto de debate, constaria dos problemas para resolver, etc.

 

E o que é isto da “métrica do espaço” de que o texto fala?

 

A métrica é simplesmente a fórmula que permite calcular a distância entre dois pontos a partir da diferença das suas coordenadas; por exemplo, num plano é o teorema de Pitágoras; se for sobre uma superfície curva já a coisa se complica; e ainda se complica mais quando generalizamos a espaços com mais dimensões do que as duas do plano ou das superfícies a que estamos habituados.”

 

Mas o Jorge diz que apresenta uma propriedade desconhecida que permite que a métrica do espaço se mantenha num universo onde o metro varia...”, a Ana, com ar desconfiado.

 

Propriedade desconhecida? Mas há lá agora propriedades desconhecidas na geometria!! Que disparate! Se o metro variasse com a direcção acontecia logo uma coisa: os triângulos rectângulos deixariam de satisfazer o Teorema de Pitágoras, como é óbvio, pois as medidas dos lados viriam alteradas.O Mário agora irritado. A Luísa achou por bem continuar a leitura:

 

Our second step is the analysis of the simplest «non-rigid body» case, the relativistic scalar change of length unit, obtaining Scale Relativity, i.e., a model where physical laws are independent of scale. The application of Scale Relativity to cosmological data leads to the Theory of Evanescence, which seems able to fit relevant cosmic data using only one parameter, the Hubble constant. Cá está, a Teoria da Evanescência de que ele esteve a falar... o que é isto da Relatividade de Escala?

 

Nunca ouvi falar, é uma invenção dele... embora eu esteja a entender... a expansão do espaço tem as propriedades de uma variação de escala, e já houve várias tentativas de construir modelos alternativos ao Big Bang baseados numa variação de escala... todos falharam porque presumiam sempre a variação de uma qualquer constante física e isso não se observa... ora ele diz que fez uma teoria relativista da escala, onde não há variação de leis físicas, logo de constantes... isso já é interessante...Os olhos do Mário adquiriram o brilho especial que os iluminava sempre que uma nova ideia surgia no horizonte.Continua.

 

Besides letting off dark matter and dark energy, it applies at all distances and to all matter distributions, and has relevant consequences concerning the past and future of Earth and Life. There is no conflict between what is presented in this paper and established theories, namely Relativity theory. E acabou!

 

Pois, ele já disse aqui que não precisava dessas coisas «negras»... o Big Bang só se aplica a uma escala em que a distribuição de matéria possa ser considerada uniforme, não se aplica dentro das galáxias, por exemplo, é por isso que ele diz que a teoria dele se aplica em todos os casos... consequências sobre a Terra e a Vida? Deve ser o lado melodramático dele... é melhor ele cortar isso ou nenhuma revista o publica... depois afirma que não conflitua com a Relatividade mas também não vai ter sorte, o conflito começa logo quando ele ataca o conceito de corpo rígido, qualquer referee percebe isso e não é pelo facto de ele fazer essa afirmação que alguém vai deixar passar isso.”

 

Então, e se ele estiver certo?A Luísa provocante.

 

Não tem hipóteses, pedir a um referee que deixe passar uma coisa dessas seria como pedir a um bispo que deixasse uma mulher dizer missa; há coisas que simplesmente são intocáveis. Mas vira a página para vermos o resto.”

 

publicado por alf às 18:26
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47 comentários:
De anonimodenome a 25 de Outubro de 2009 às 22:39
Viva.
Aguardo a revelação da chave de leitura, o segredo guardado no Teorema de Pitágoras.
No 1º parágrafo a frase 'Somehow..., não me parece fundamental. Acrescenta algo, ajuda a situar para quem não está dentro, ao modo de um educador, mas começamos logo a pensar em coisas,... se sim, se não.., e podemos desviar do cerne.
Como dizes, e bem, o CMB é um referencial absoluto em termos de unidade de energia/massa, tempo e comprimento. Mesmo assim ele localmente pode não ser invariante, e creio que não o será mesmo no âmbito da Teoria da Evanescência.
Com os telescópios VLBI estabelecemos um referêncial da unidade de tempo, que pensamos absoluto e invariante. A pulsação de alguns pulsares é mais regular do que a dos modernos relógios atómicos.
Quanto ao comprimento, tempo e massa é comummente presumida a invariância.

Mas com a existência de um referencial absoluto ficará sem efeito a noção da impossibilidade de determinar movimentos absolutos.
de Poincaré "Il semble que cette impossibilité de démontrer le mouvement absolu soit une loi générale de la nature."
http://fr.wikisource.org/wiki/Sur_la_dynamique_de_l%27%C3%A9lectron_(juin)

O alf parece seguir na lógica, melhor intuição, de Poincaré que não abandonou a noção de éter onde ele situava os relógios absolutos i.e. o Referencial R desta história.

Quanto à dificuldade de medida do 'segundo' encontrei um documento da 'metrologia' sobre o Leap Second
The leap second: its history and possible future em
www.cl.cam.ac.uk/~mgk25/time/metrologia-leapsecond.pdf
onde se aprende muito.
Fiquei a saber que a Lua estava a chegar 'adiantada' aos programados eclipses logo a velocidade da rotação da Terra estaria a diminuir. Logo os eclipses reportados na Antiguidade mostravam este atraso. Mas agora que se sabe que a Lua está a afastar-se da Terra implicaria também que a Lua estaria a orbitar agora mais lentamente que no passado. E agora em que é que ficamos... a Lua a adiantar-se a atrasar-se e a Terra está a rodar mais depressa ...ou mais devagar, em suma medir é uma complicação.

Para abandonar o 'corpo rígido' também as partículas constituintes da matéria devem perder a noção de partículas pontuais. Têm de ter extensão e deixa de haver singularidades e campos infinitos. Será ? o livro 'Our Resonant Universe' de Michael Pinnow creio que vai nesse sentido.

Quando dizes " In this paper, it is presented an unknown geometrical property that allows the metric of space to hold in a «non-rigid body» universe"
acho que deves reforçar que a estás a desvendá-la, eu sei que está implicito,talvez com 'for the first time' ou hidden ou not noticed before,
A título de exemplo quando se começou a dizer 'existe matéria negra' é diferente de afirmar 'a matéria negra é'
porque numa afirmação revela-se a existência de algo e na segunda afirmação revela-se a sua natureza. O que também já sabemos que nunca irá ser desvendado (Um papper recente de um autor muito credenciado veio colocar em causa a possibilidade da sua existência porque ...).

No teu caso fazes duas em uma. Revelas a existência de uma propriedade desconhecida e também a vais descodificar.

Um 'for the first time' fica bem.

Aguardo com ansiedade um virar de página
p.f.
De anonimodenome a 25 de Outubro de 2009 às 23:14
acho que me expressei mal quando disse que as partículas têm de ter extensão.
extensão é uma palavra perigosa e talvez mesmo o oposto do que queria dizer.
mas falta-me uma expressão mais adequada.
De alf a 26 de Outubro de 2009 às 19:33
eu entendi o que queres dizer e estou de acordo; só referi que nada podemos afirmar sobre esse assunto a partir do conceito de corpo rígido; ou podemos, mas é preciso uma base conceptual mais subtil do que a que temos agora...
De alf a 25 de Outubro de 2009 às 23:32
obrigado pela análise. Se não ponho o «somehow» haverá logo quem venha apontar diferenças entre uma coisa e outra, é por isso que me parece prudente manter a palavrinha.

Mas gostei muito da sugestão do «not noticed before»; embora tenha tb as reservas da prudência, talvez dizer «not refered before».

o referencial de tempo dos pulsares, nalguns casos, é muito regular comparado com os relógios atómicos; mas nenhum tem um carácter absoluto, apenas podemos concluir que variam à mesma taxa.

Pois, a análise dos movimentos orbitais da Lua e da rotação da Terra é uma confusão porque nunca foi previsto que acontecesse aquilo que se está a conseguir medir agora: a Lua afasta-se e a rotação da Terra acelera.

a noção de corpo rígido não implica nada em relação à natureza das partículas. O que define a forma dum corpo é a distância entre átomos e tanto faz que as partículas sejam pontuais como não. Mas é claro que a visão do autor que citas é muito melhor do que a ideia corpuscular.

Um abraço

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